domingo, 2 de novembro de 2014
quarta-feira, 7 de maio de 2014
Vive se faz favor
Numa hora em que o pensamento voa, dou por mim a escrever
mais uma carta sem tino. Tudo porque o mundo é redondo, o vento corre apressado
e os rios desaguam no mar.
Eu sei, que começarás por achar caricata uma prosa
deslavada e sem sentido, muito à maneira de quem não está nem aí. Como se o
estar ou não estar, fosse acto consumado na imaginação, ou mesmo no coração. Olho
para ti na impermeabilidade do insensível e reparo na angústia que escondes a
custo, no canto do olho.
Dir-te-ei contudo, não percas tempo, o tempo é valioso
para ser desperdiçado, na busca contínua do invisível, quando não conseguimos
sequer enxergar o que temos ao lado, de que serve desbravar o desconhecido.
Repara quando amanhece no brilho do sol, na frescura
das árvores, ou num carreiro de formigas, e verás que sabiamente se repetem,
dia após dia, tranquilamente, como se a noite por si só, invisível á sua
labuta, não estivesse ali ao virar da esquina. A mesma noite em que a alma
humana embarca, tolhida pelo receio de perder o que não se tem.
Nesta hora em que o pensamento voa, analiso friamente
o que resta da solidão, sem estar só, e chego à conclusão que tenho pena, pena
pela falta de coragem em ser. Ser como os cães vadios, aqueles que finges não
existir, e que, ao fim e ao cabo a mim e a muitos outros, tudo o que despertam,
é solidariedade, enquanto tu despertas pena. Como se errar e errante, não
vivessem paredes meias, como se não errasse quem julga seguir bitolas, ou quem
se encaixa numa sociedade comodamente controlada pelo comodismo.
Reparo que neste momento a mágoa virou ira, ira pelo
que lês nas entrelinhas desta carta de merda e que escrevo como quem está nem
aí.
A vida é muito curta, e nada acontece por acaso,
devias saber que somos regidos pelo eixo da terra que gira sobre si mesma, sem
que a lua possa tocar no sol, e que dia após dia, ano após ano, caminha mos
irreversivelmente por um caminho sem volta.
Então vive se
faz favor e deixa de vasculhar o nada.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
Carta para ti
Na boca da
madrugada tenho a alma vazia, mais uma vez o sono me renega, tal como renego os
caminhos que não sei. Quando o sonho acontece devemos lutar por ele, dar-lhe visibilidade,
credibilidade, devemos mostrar ao mundo o orgulho nesse sonho, quando o sonho
ou o amor acontecem não há barreiras intransponíveis.
Na boca da
madrugada o silencio me faz companhia, contudo ao longe a tua voz se faz ouvir,
devo estar louca, comodamente me aconchego na minha loucura, há tanto tempo que
vivo do som que o escuro me trás, o som da minha imaginação.
Sabes, não
sei se fui eu que errei ou se foi o vento, sei tampouco e ao mesmo tempo sei
tanto, sei que amei voraz mente, não sei se o tempo desse amor foi tempo
somente, sei que envelheci muitos anos, em muito poucos, não sei se a velhice
me trouxe a bendita sabedoria, sei que fiz de ti um deus, não sabia que seria
sempre o diabo a teus olhos. Não sabia que de alguma maneira acabamos por
encarnar a imagem que o tempo nos atira à cara.
Sabes quantas
foram as noites sem dormir, quantas as lágrimas, os sorrisos que não
aconteceram, sabes que nunca me olhaste, ou eu nunca me senti olhada. Todo o
tempo foi pouco, o tempo era sempre pouco para se olhar com preceito, contudo o
tempo sempre foi longo a esticar o molde em que nunca encaixei.
Sinto uma
mágoa calma, esta noite, lá está novamente a tua voz, chama por mim, diz
docemente o meu nome, baixinho, o meu nome é para ser prenunciado baixinho, não
vá a estrela acordar, a que dorme tranquilamente a teu lado, te embala o sono,
te cuida na presença, te chama de meu, contudo é o meu nome que dizes baixinho.
Não sei se
errei desalmadamente, ou se amei inocentemente, sei contudo que não me moldo
aos gestos alheios, sei também que estou sozinha, que sempre fui sozinha e
nessa solidão me senti esquecida em momentos inoportunos, senti que era bola de
pingue-pongue jogada de aberta em aberta, nas abertas que uma vida dada aos
outros disponibiliza. Sabes que mais, acabarei por pegar na bola, lança-la ao
alto e vou ficar aqui, sozinha remexendo nas minhas recordações, como companhia
tenho o amor de uma vida, o amor a quem a luz do dia nunca aqueceu.
Ah, e tenho
os gatos, são eles que velam por mim, na doença e na saúde, nos dias de inverno
ou quando o verão aquece, e sabes que mais são os gatos os únicos que me olham
e não me vêem a preto e branco.
segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
Feliz 2013…. Para todos os que passam por este Blogue,
tornando assim os meus dias mais ricos em calor humano.
Hoje não escrevo poemas
Nem tao pouco sentimentos
Penso escrever apenas
A paz em alguns momentos
Este ano de 2012 foi enganador
Deixa no regaço a saudade
De um povo sofredor
Alguma intranquilidade
E no meio muita dor
Deixa contudo a esperança
Num mundo muito melhor
Deixa em mim confiança
Que darei um passo maior
Assim a minha crença
Chegue ao teu coração
Esta missiva convença
A dar-mos então a mão
Um feliz 2013 é a minha vontade
Que te traga muita saúde
E um pouco de vaidade
Em ser tal como és
Nunca te deixes moldar
Se Deus te fez tal e qual
À imagem que tens de ti
É porque não estás assim tão mal
E mereces ser feliz.
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
Carta ao Menino Jesus
Meu menino jesus, falo muito pouco contigo, talvez esteja em
falta, guardo há muito todas as nossas conversas para mais tarde, quando os anos
pesarem e na falta de amigos aí sim, falarei contigo, prometo que porei todas
as conversas adiadas em dia, não sei que pensas disto, podes achar sacrilégio
eu guardar as conversas para os momentos de solidão que a vida certamente me
trará. Porém hoje dedico algum do meu tempo apressado a uma conversa adiada.
Sabes, por um momento imaginei-me novamente criança, e se o
fosse pediria uma cesta cheia de chocolates como prenda de Natal, quando era
menina adorava chocolates, corria na manhã do dia 25 para a meia pendurada na
chaminé, onde o grande madeiro de Natal crepitava e as largas chamas se
assemelhavam a dragões, tinha ardido a noite toda e mesmo assim o grande tronco
de azinho ainda ia a meio, e lá estavam eles, os chocolates dentro da meia, um
pai natal pequenino e dois ou três bombons, o melhor presente que me poderiam
dar.
Imagino que aches estranho se eu te pedir chocolates este
ano, mas é isso mesmo que te peço, chocolates em forma de vontade, a vontade
que os senhores do mundo tem negado a todas as crianças que nesta quadra vão
passar frio e fome, sabes escrevo e penso muito ao longo do ano em todas as
crianças com fome, talvez porque mesmo crescendo sem pai, nunca passei fome,
nunca soube o que era frio no Inverno, nunca tive a barriga colada às costas,
mas imagino se a sorte me tivesse sido ainda mais madrasta, a sensação dos pés
descalços na lama nas manhãs frias de Inverno, ou o olhar aguado frente à porta
da padaria, onde todas as manhãs em dias de escola podia ir buscar um bolo, que
a minha tia mais tarde pagaria.
Pois bem é chocolates que te peço, chocolates em forma de
bom senso, que todos os senhores do mundo parem no dia de Natal e repensem as
politicas porque se regem, sei que é utopia mas peço-te pais natais aos montes,
que todos os pais que por este ou aquele motivo deixaram filhos para trás no
percurso da vida, repensem esse mesmo percurso, também quero um saco enorme de
moedas de chocolate, se não for pedir muito quero que as convertas em abrigos
para quem deles necessita, não te vou pedir pelo meu país, não, peço pelo mundo
que na sua vastidão tanto abandono acarreta, e agora como a noite vai alta e tu
tens mais em que pensar, para mim peço que nunca me cortes a imaginação e que
me continues a dar destreza para repassar para o papel as minhas conversas, mas
não te zangues por eu raramente falar contigo, e que no ano que vem a minha
carta de natal transcreva felicidade, era sinal que atendias a pelo menos
metade dos meus pedidos, mas se por ventura os homens continuarem cegos e tu
não lhes consigas tocar o coração, por favor Menino Jesus, que no próximo Natal
as crianças adormeçam a meio do dia, se dormirem a fome ficará mais leve.sábado, 17 de novembro de 2012
Capa de plástico.
O barulho da chuva desviou a minha atenção mais uma vez, tem
sido assim nas últimas vinte e quatro horas, em que tem chovido copiosamente
como se as forças que nos regem estivessem empenhadas para o alerta do que realmente
comanda os nossos destinos, a natureza é ímpar a relembrar-nos a nossa humilde
condição humana.
Enfeitiçada pelas rajadas de vento que fustigam grossas
gotas de água de encontro à minha janela, aproximei-me e colei o nariz à
vidraça, em breves minutos o riacho apaziguado por uma breve aberta e uma nesga
de sol, volta a correr apressado quase a toda a largura da rua, gosto de olhar
estes pequenos rios, um gosto que me vem dos tempos de criança, recordo que
enfiada numas galochas pretas e de capa contra intempéries, uma capa feita de plástico
transparente comprado no Grémio da vila e que a minha tia costurou
minuciosamente, para que assim pudesse brincar à chuva sem me molhar,
desbravava horizontes em dias como o de hoje. Nessas alturas era pescador enfrentando
a loucura do oceano, pescava grandes baleias e golfinhos, depois da pescaria
regressava a casa, afogueada, para me aninhar na velha chaminé onde as
labaredas me acariciavam as mãos geladas, e a minha tia me trazia uma caneca de
leite quentinho. Hoje tantos anos passados a força da chuva e do vento ainda
tem sobre mim efeito calmante, consigo assim regredir no tempo e na saudade.
Perdida nestes pensamentos continuei de nariz colado à
vidraça e só me dei conta dela quando passou frente á minha casa.
Uma mulher lutava desesperadamente com uma das mãos tentando
assim que o guarda-chuva não se desfizesse com a força do vento e da chuva, com
a outra arrastava atrás de si um carrinho de compras, senti um arrepio ao olhar
aquele corpo franzino envergando uma capa de plástico que esvoaçava em todos as
direcções deixando-a completamente alagada da cintura para baixo, senti que
aquela mulher estava tão sozinha naquele momento, reparei que nos pés trazia
uns velhos ténis também eles ensopados, os cabelos escorriam-lhe pela cara
encobrindo a sua idade, que não consegui decifrar, o quadro que tinha na minha
frente pareceu-me surrealista, como é que alguém se aventura a sair de casa com
um tempo destes, quais as suas necessidades, senti um aperto no coração e muita
pena, como que adivinhando a minha pena, a mulher olhou em direcção da minha
janela e sorriu, para logo seguir caminho rua abaixo.
Eu refeita da aparição no meio do temporal, retornei para
junto do fogão onde o meu jantar fervilhava, antes de me embrenhar no meu
conforto, ainda tive tempo para pensar na capa de plástico azul que a mulher
levava sobre o corpo, tão diferente da minha capa de plástico transparente, e
com tanto amor costurada.
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
Carta não sei a quem...
Se eu morresse agora, às
cinco da madrugada de um dia sem data, depois de mais uma noite sem dormir.
Se eu morresse nesta hora, alguém
sentiria a minha falta, choraria a minha morte, alguém se lembraria do meu
sorriso ou da minha cara quando estou zangada.
Se eu morresse agora diriam
que também fui mãe, também amei e julguei odiar. Alguém pesaria na balança todo
o bem que lhe fiz, em prol de algum mal, teria saudades dos passeios que não
fizemos nas tarde de primavera, das horas calmas a ver televisão que nunca
aconteceram, alguém iria levar-me flores, mesmo sabendo que nunca mas deu, em
vida.
Se eu morresse nesta hora em
que chove copiosamente lá fora será que alguém acordaria sobressaltado, alguém
se lamentaria pelas palavras e pelos gestos que deixou para depois, ou será que; sou tão insignificante que o meu corpo apodreceria, aqui mesmo, neste lugar, onde
descarrego todas as minhas emoções com a força das palavras no computador. E um
dia, quando por acaso encontrassem o meu esqueleto enegrecido, pusessem um olhar
condoído, baixassem a cabeça e simplesmente dissessem:
- A coitada morreu mas pelo
menos o gato fez-lhe companhia!
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